Espadas · Dados que assustam
Confira dados alarmantes e a trajetória do problema
R$ 105
bilhões
foram depositados em casas de apostas regulamentadas somente em 2026, até a proibição em setembro.
No auge, o Brasil chegou a ter mais de 43,8 milhões de pessoas cadastradas em plataformas regulamentadas, e o número real provavelmente foi ainda maior.
Fonte: Yogonet Brasil, setembro/2026
Linha do tempo
O jogo não é um problema novo
Todas as vezes em que o Brasil tentou proibir formas de aposta elas voltaram.
Arraste para o lado 1892 a 2027
1892
3 de julho: acontece o primeiro sorteio do jogo do bicho, com o avestruz sendo o animal sorteado. Nasce a modalidade de aposta mais popular da história do Brasil.
Fonte: Wikipédia, Jogo do Bicho
1895
Sob pressão popular, o prefeito do Rio de Janeiro proíbe o jogo do bicho. A proibição não funciona, e o jogo migra pra clandestinidade, onde segue até hoje.
Fonte: Wikipédia, Jogo do Bicho
1899a 1932
Uma sequência de leis tenta conter o jogo do bicho com penas cada vez mais duras, prisão de até seis meses em 1910, contravenção penal inafiançável em 1932. Nada disso desmonta a rede, porque nunca houve um combate real contra as estruturas que sustentavam as apostas, só punição pra quem jogava.
Fonte: Leis 628/1899, 2.321/1910, Decreto-Lei 21.143/1932
1946
O presidente Eurico Gaspar Dutra assina o Decreto-Lei 9.215, proibindo todos os jogos de azar no Brasil, cassinos inclusive. A rede clandestina que já sustentava o jogo do bicho absorve a demanda que sobra.
Fonte: Decreto-Lei 9.215/1946
1967
A União cria a loteria federal e assume o monopólio dos jogos de azar legais no país.
Fonte: Gambling in Brazil, Wikipedia
1993
Bingos e caça-níqueis são legalizados temporariamente.
Fonte: Gambling in Brazil, Wikipedia
2004
O governo Lula edita a MP 168, proibindo bingos e caça-níqueis após o escândalo Valdomiro Diniz. A proibição dura apenas cerca de 70 dias: o Senado rejeita a medida por 32 votos a 31, e os bingos voltam a funcionar amparados por liminares judiciais até o STF proibir definitivamente o jogo em 2007.
Fonte: Senado Notícias, BNLData
2018
Dezembro: Michel Temer sanciona a Lei 13.756, abrindo caminho pras apostas esportivas de quota fixa no Brasil.
Fonte: Lei 13.756/2018
2019
O Fortaleza estampa a NetBet na camisa, o primeiro patrocínio de uma casa de apostas num clube brasileiro. Nove meses depois, 65% dos times da Série A já tinham uma bet no peito.
Fonte: Máquina do Esporte, Exame
2020
O mercado já movimenta R$ 7 bilhões por ano no começo da pandemia.
Fonte: BNLData
2023
Lula sanciona a Lei 14.790, regulamentando as bets e ampliando o escopo pra cassinos online. 14 milhões de brasileiros já apostam, movimentando uma estimativa de R$ 120 bilhões.
Fonte: Lei 14.790/2023, Exame
2024
O Congresso instala a CPI das Bets pra investigar lavagem de dinheiro e endividamento de famílias. 23 milhões de brasileiros já apostam.
Fonte: CPI das Bets, Banco Central
2025
O mercado federal regulado entra oficialmente em vigor, com cobrança de impostos. A movimentação mensal já bate R$ 30 bilhões.
Fonte: Senado Notícias, Exame
2026julho
O governo exige aviso nos anúncios, “aposta não é investimento”. Os cadastros chegam a 43,8 milhões.
Fonte: CNN Brasil, Yogonet Brasil
202625 de setembro
Lula assina a Medida Provisória que proíbe as bets e cassinos online em todo o território nacional.
20266 de outubro
Os sites e aplicativos de apostas saem do ar no Brasil.
2026outubro
Nasce o Movimento Solta a Carta.
2027
Temos a oportunidade de dar um basta para as bets.
Apoie o movimento
Quem lutou pra isso não acabar
Tem muita gente em Brasília lutando a favor da ludopatia
Existe um grupo de parlamentares que atua, de forma informal mas coordenada, em defesa das casas de apostas no Congresso Nacional. O grupo inclui deputados, senadores e as duas maiores lideranças do Legislativo: o presidente da Câmara dos Deputados e o presidente do Senado Federal já atuaram publicamente para proteger o setor, incluindo a retirada de uma taxa extra sobre as bets de um projeto de combate a facções criminosas e o bloqueio de propostas que aumentariam a fiscalização sobre o setor.
Fonte: Agência Pública, MS Notícias
As vitórias que eles comemoraram
15%
0%
Taxa extra (CIDE-bets) retirada do projeto: R$ 30 bilhões por ano poupados pro setor
18%
12%
Alíquota de imposto reduzida durante a regulamentação
Esse grupo já comemorou vitórias concretas, como retirar uma taxa extra de 15% (a CIDE-bets) de um projeto de lei, o que teria economizado R$ 30 bilhões por ano pro setor, e reduzir a alíquota de imposto proposta de 18% para 12% durante a regulamentação. As estratégias vão além do plenário: convites pra coquetéis com empresários do setor, viagens a paraísos fiscais no Caribe e relações pessoais com donos de casas de apostas fazem parte do jogo de bastidores.
Fonte: Agência Pública
O jogo de bastidores
- ♠Coquetéis com empresários do setor
- ♦Viagens a paraísos fiscais no Caribe
- ♥Relações pessoais com donos de casas de apostas
Essa influência também aparece em decisões recentes. Em junho de 2025, o relatório da CPI das Bets no Senado foi rejeitado por 4 votos a 3, a primeira vez em dez anos que um relatório de CPI é derrubado na própria Casa. Meses depois, um projeto de lei que libera cassinos, bingos e até o jogo do bicho físico também tramitava no Senado, e só não avançou com urgência porque o pedido foi rejeitado por 36 votos a 28.
Fonte: cobertura legislativa, 2025-2026
Relatório da CPI das Bets
3 × 4
a favor × contra · rejeitado
Urgência pra liberar cassinos e bingos
28 × 36
a favor × contra · rejeitada
A vitória de hoje tem data de validade. Esse é o mesmo grupo que vai decidir, nos próximos 120 dias, se a proibição se torna lei definitiva ou se perde a validade. Não é exagero dizer que a vitória de hoje tem data de validade e gente de interesse torcendo contra ela.
São milhares de opções
As bets acabaram.
Para onde que o
apostador vai migrar?
Mesmo antes da proibição, 40% dos apostadores brasileiros já usavam plataformas clandestinas ou não regulamentadas, driblando a fiscalização mesmo com o mercado legal funcionando normalmente. Isso mostra que a demanda por apostar nunca dependeu de uma casa ter ou não autorização pra operar.
Cerca de 20% da população brasileira tinha uma conta ativa em plataformas de apostas até a proibição. Na maior cidade do país, o número é mais preocupante ainda: uma pesquisa da FecomercioSP, realizada entre 4 e 8 de maio de 2026, descobriu que 50% dos paulistanos apostavam com frequência, e 7% deles já reconheciam sofrer de dependência do jogo. O índice de risco calculado pela FECAP, cruzando fatores financeiros, emocionais, comportamentais e acadêmicos/profissionais, chegou a 64,2 em 100 entre jovens paulistas de 18 a 29 anos, classificado como risco elevado.
Fonte: FecomercioSP, maio/2026; FECAP, 2026
64,2 em 100
0100
Risco elevado · jovens de 18 a 29 anos
50% dos paulistanos apostavam com frequência
7% reconheciam dependência do jogo
Depois da proibição
103→294
novos sites clandestinos criados por dia nos dias seguintes ao anúncio, uma média de 143 por dia.
Fonte: Filipe Boni (vídeo)
4
servidores federais dedicados à fiscalização, que usaram só R$ 275 mil dos R$ 1 milhão disponíveis pro ano.
Fonte: Filipe Boni (vídeo)
−10%
nas transações via Pix nos primeiros dias, em relação à média das quatro semanas anteriores.
Fonte: Banco Central, CNN Brasil
R$ 12 bi
por ano ainda movimentados pelo jogo do bicho, proibido desde 1895.
Fonte: Wikipédia, Jogo do Bicho
Nos primeiros dias após a proibição, as transações via Pix caíram 10%. Isso não significa que o brasileiro parou de apostar, pode ser só o tempo que o mercado ilegal está levando pra se reorganizar e assumir toda a demanda que sobrou.
Fonte: Banco Central, CNN Brasil
Esse caminho já foi testado em outros países. A Itália baniu a publicidade de apostas em 2018 e hoje perde uma estimativa de 1 bilhão de euros por ano pro mercado negro de apostas online.
Proibido desde 1895, o jogo do bicho nunca deixou de existir, sustentado por uma rede informal de “bicheiros” que resistiu a mais de um século de leis contra ela. Não há motivo pra achar que o padrão vai ser diferente agora com as bets.
Relato anônimo
“Comecei numa plataforma regulamentada, dessas que todo mundo conhece. No mesmo dia que abri minha conta lá, um amigo me indicou uma banca por fora, sem burocracia nenhuma, te dava crédito sem precisar pagar na hora. Você ganhava, não pagava nada, às vezes perdia, pagava um pouquinho, e a bola foi só aumentando. Pra mim não tinha diferença entre o site sério e o clandestino. Os dois queriam a mesma coisa.”
Mais de cem anos na ilegalidade. Se o jogo do bicho resistiu mais de cem anos na ilegalidade com uma estrutura muito mais simples, imagine o que uma rede de apostas online, que já provou em poucos dias ser capaz de abrir milhares de sites novos por semana, é capaz de fazer.
A lógica mercadológica
A engenharia do “quase ganho”
O setor foi o segundo maior anunciante do país, controlando 4% de todo o investimento em mídia no Brasil, ficando atrás apenas do setor de varejo. Esse dinheiro gasto era principalmente distribuído em compra de espaço de propaganda na televisão, patrocínio esportivo e compra de influência pessoal nas redes sociais. O gasto não era algo feito por acaso. Quanto mais as apostas apareciam ao lado de coisas e pessoas que o brasileiro admirava e acompanhava, menos elas se pareciam com um risco e mais pareciam um hábito do dia a dia.
- 1ºVarejo
- 2ºApostas
Grande parte dessa publicidade massiva vinha de influenciadores. Criadores de conteúdo como Virginia Fonseca, Felipe Neto, Neymar e John Vlogs promoviam casas de apostas pra milhões de seguidores, muitas vezes recebendo uma comissão sobre o quanto esses seguidores perdiam, não sobre o quanto ganhavam. O Ministério Público já pede R$ 120 milhões de indenização de Virginia e da Blaze por publicidade enganosa, e outros influenciadores já fecharam acordos ou reconheceram o problema, Felipe Neto chegou a chamar a parceria de “a pior coisa que fiz na vida”.
Fonte: ações do Ministério Público, cobertura jornalística
Como o influenciador ganhava
O jogo foi feito pra te prender a partir da sensação de “quase ganho”, que ativa os mesmos mecanismos de recompensa que substâncias como a cocaína ativam. As casas de apostas online eram desenhadas algoritmicamente pra fazer você sentir prazer quando perde, pra ter mais vontade de apostar. Notificação, bônus, cupom de depósito, cashback e rodada grátis, tudo ali foi pensado pra ativar esse ciclo com o máximo de estímulos possível, mais do que qualquer outro jogo de azar já tinha feito antes.
O app saiu do ar. O gatilho, não. Esses gatilhos não são desligados apenas pelo banimento dos aplicativos que saíram do ar. Quem passou meses ou anos sendo condicionado por esses estímulos continua sentindo a mesma vontade, só que agora sem o canal que criou o hábito. As plataformas clandestinas veem isso como oportunidade de mercado e planejam preencher esse vazio.
Fontes: Kantar Ibope Media/Folha de S.Paulo, Ibope Advertising Intelligence/Meio & Mensagem, Itaú Unibanco, Tunad
Quem ganhou com isso?
Esse dinheiro nunca voltou pra sociedade
Enquanto estiveram regulamentadas, as bets não geraram riqueza, elas só trocaram de mão o dinheiro que já existia. Segundo um estudo do Made (Centro de Pesquisa em Macroeconomia das Desigualdades) da USP, as apostas online retiraram entre R$ 120 e R$ 141 bilhões da atividade econômica do Brasil só em 2025. Esse valor equivale a 40% a 50% de todo o crescimento econômico do país naquele ano.
Fonte: Made/USP
R$ 120 a 141 biretirados da atividade econômica em 2025
O mecanismo é simples. A aposta transfere renda das famílias diretamente pros operadores das plataformas, sem gerar nenhum produto, serviço ou valor novo. As famílias perdem poder de compra, o consumo cai, e a demanda da economia como um todo encolhe. Mesmo contando os empregos criados pelas próprias plataformas de apostas, o estudo mostra que o resultado final pra economia continua sendo negativo.
Fonte: Made/USP
Pra onde ia o dinheiro
- 01A renda sai das famílias
- 02Vai direto pros operadores das plataformas
- 03Nenhum produto, serviço ou valor novo é criado
- 04O consumo cai e a economia encolhe
R$ 31–55 bi
de arrecadação perdida com a queda na atividade econômica.
Fonte: Made/USP
−R$ 22–46 bi
foi o saldo pros cofres públicos, mesmo descontando cerca de R$ 9 bilhões arrecadados com impostos sobre as bets. Equivale a 10% a 20% do orçamento de saúde pública do estado de São Paulo em 2025.
Fonte: Made/USP
O rombo nos cofres públicos não para aí. As 85 empresas que pagaram R$ 30 milhões cada para operar legalmente, um total de R$ 2,55 bilhões, não vão receber esse dinheiro de volta: a própria Medida Provisória que baniu o setor deixa claro que não haverá devolução das outorgas nem indenização pelas empresas.
Fonte: Tribuna do Sertão, Ministério da Fazenda
Esse problema pode ser resolvido.
Se informar é o primeiro passo pra virar esse jogo.
